Sapato Apertado

Sapato Apertado

Quando se faz necessário explicar um pouco mais de um conceito psicológico, costumo recorrer a algumas metáforas e analogias pra facilitar o entendimento de alguém que não tenha tanta familiaridade com o assunto. Isso fez parte – faz até hoje – da minha própria maneira de assimilar estes conteúdos e um paciente uma vez me disse que o auxiliaram bastante também. Por isso, trago uma delas aqui: a do sapato apertado.

Imagino que não seja incomum que se tenha no armário um sapato usado algumas poucas vezes. Talvez um sapato para ocasiões mais formais que depois fica esquecido no cotidiano. Acontece que, vez ou outra, aparece uma oportunidade de usá-lo e, mesmo já não servindo como antigamente, insistimos uma vez mais. Não é um item tão baratinho pra se considerar a compra de um novo, ainda mais sabendo que depois serão mais sei lá quantos meses sem precisar dele novamente.

Você calça, olha no espelho, sente um aperto discreto e decide seguir com o plano. Passam-se algumas horas, o desconforto vai aumentando. Aquilo que parecia valer a pena, já incomoda significativamente. Lá pelas tantas, você até se questiona: onde estava com a cabeça pra querer usar esse sapato? E quando o aperto é grande, qualquer pessoa sabe que, se insistir usando, vai ter bolhas ou até outros machucados pela frente.

Trocando em miúdos, agora, pra você entender onde quero chegar. No início dessa história, havia um ganho implicado no sacrifício que, naquele momento, parecia pequeno. Não seria preciso se deslocar até uma loja pra comprar um outro sapato, não seria necessário perder tempo escolhendo entre os modelos disponíveis… Por tudo isso, parecia valer a pena suportar aquele desconforto. Acontece, porém, que não se previa o que viria adiante.

Também na vida, tentamos nos encaixar em formas que não vestem adequadamente. É o que fazemos quando moldamos nossas atitudes pra pertencer melhor a um grupo da escola ou do trabalho. É o que acontece quando percebemos que algo da nossa expressão espontânea parece não agradar as pessoas ao nosso redor. São como pequenos sacrifícios que parecem valer a pena em vista da aceitação que buscamos.

Mas, assim como o sapato apertado, o tempo passa e os limites parecem doer cada vez mais. Lá pelas tantas, percebemos que estamos nos machucando profundamente para agradar o outro. E, na maioria das vezes, este outro nem sabe direito o que quer para ser agradado. Gastamos tempo, energia e saúde para nos encaixarmos em formas apertadas que nos descaracterizam, nos de-formam.

Diante disso, questione-se agora: até onde você está disposto a chegar? Será que não está na hora de interromper este ciclo?