Bandeira Vermelha

Bandeira Vermelha

Em psicanálise, sobretudo na que se denomina lacaniana, muito se fala sobre o "desejo do Outro". Um conceito difícil de explicar muitas vezes, mas que perpassa a vida de todos nós.

Sim, a sua também.

Imagine o seguinte: quando muito criancinha, todo seu acesso ao básico da sua sobrevivência se deu por meio das pessoas ao seu redor. Fosse o leite materno, o banho ou a fralda trocada. Elementos que te permitiram, com o tempo, fazer parte da família, da escola e outros meios sociais. Você aprendeu a falar e a conviver e, por mais variadas que sejam essas experiências, sempre envolvem o desejo desses outros que te circundam – os pais, avós ou cuidadores, o professor, o padre, o pastor...

Ao longo dos anos, o que se instala em cada um de nós é uma relação muito delicada com o que desejam esses outros, afinal de contas, dependemos deles. Nos submetemos, em boa parte da vida, ao que eles desejam, visando obter, no fim das contas, sua atenção, seu amor e aprovação.

Mas... qual o problema nisso tudo? Parece tudo ok até aqui.

Pois bem, a grande questão é que nem sempre atendê-los é sinônimo de felicidade.

Tem muito sofrimento que decorre da busca de satisfazer os desejos alheios, até porque, essas pessoas (assim como nós) sabem bem pouco do seu desejo e padecem das mesmas fragilidades que qualquer um nós. Elas também tem seus dilemas existenciais, seus sofrimentos, tem suas lacunas e, por conta disso tudo, podem colocar a nós diversas demandas extremamente problemáticas.

Numa sessão recente, um paciente criou uma analogia muito bacana para ajudar na compreensão disso tudo. Comparou o Outro e seu desejo ao toureiro daquelas touradas espanholas. Ele segura a bandeira vermelha e a agita. O touro, que somos nós, somos atraídos e corremos para ela. Só que, para surpresa de nenhum de nós, isso não nos leva a lugar nenhum. O toureiro se move, a bandeira não era nada e tudo recomeça.

Perceba que o desejo do Outro é exatamente isso: uma atração que nos move, que consome nossas energias, mas não leva a lugar nenhum.

Tá, ok, no início da vida este desejo é essencial. Afinal, uma criança pequena tem pouquíssimo entendimento das coisas ao seu redor, principalmente daquilo que pode lhe acarretar algum perigo. Mas, porém, contudo, isso passa e deveríamos esperar que essa criança torne-se um adulto autônomo e responsável.

Acontece que em nossas vidas os limites são muito mais tênues e isso não ocorre de forma assim tão orquestrada. Bom seria se fosse só identificar o toureiro e sua bandeira. As relações humanas, entretanto, são extremamente complexas, o que requer um trabalho muito mais árduo.

E é pra isso que existe a análise, para possibilitar um "despertar" – que medo das crendices em torno dessa palavra – desse touro que não parece capaz de ver além das demandas postas por seu toureiro.

Uma vez "liberto" – medo dois – das demandas da tourada, podemos reaprender a olhar para nossos próprios desejos. E isso é, de fato, um novo aprendizado. Tal qual quando aprendemos a andar de bicicleta. Iniciamos este processo inseguros e pouquíssimo habilidosos. Mas, como se diz popularmente, "uma hora vai".

Só é preciso ter paciência.

Não tem magia!