Se Eu Fracassar, Serei Amável Comigo Mesmo

Autocompaixão

Boa parte da resistência que se tem em procurar ajuda por ela estar comumente associada à derrota, ao fracasso e à incapacidade. Não raro, muitas pessoas só o fazem quando sentem-se no fundo do poço. A cultura em que estamos inseridos reforça a competição, o individualismo e a autossuficiência – que não são ruins em si, mas podem ser tomados de forma desequilibrada. Perceba: a linha que separa essas características de serem adequadas ou não é muito tênue. Se não é desejável um isolamento excludente, não seria adequado depender absolutamente do outro para atingir seus objetivos. Há aí um caminho do meio, de autonomia e liberdade, por um lado, e suporte e solidariedade, por outro.

Mas este nem é o foco deste texto. Parto de que a competição se dá, e se há vencedores, há aqueles que são considerados perdedores. E mesmo que, em algumas situações, possamos justificar nosso melhor ou pior desempenho por diversos fatores alheios a nós, ou seja, que estão fora de nós e do nosso alcance, em outras não há nada. Teríamos, simplesmente, fracassado. Ponto! Não poderíamos responsabilizar ninguém mais, somente a nós mesmos pelos caminhos que tomamos. É uma atitude muito madura perceber o quanto daquilo que vivemos é fruto das nossas próprias escolhas. Mas como é angustiante ver-se diante de uma situação como essa, em que ninguém mais pode dividir conosco a culpa de uma falha ou de um enorme desapontamento. Resta, somente, olhar no espelho e defrontar o responsável.

Chegamos então à grande pergunta: se eu tiver fracassado, como pretendo acolher a mim mesmo?

É uma pergunta um tanto esquisita. Mas bastaria recordar um exemplo concreto para a compreendermos melhor. Se uma criança pequena se desequilibra e cai, a acolhemos na sua tristeza, cuidamos dos seus machucados e a ajudamos na superação daquela frustração, sabendo que seu contínuo empenho em novas tentativas vai fazer com que isso não volte a acontecer. E, mesmo se acontecer, estaremos ali para um novo processo de recuperação. Com outras pessoas, em fases posteriores da vida, diante de esforços genuínos, mas que não dão em nada, tendemos a ser compassivos, somos capazes de oferecer palavras de consolo, porque entendemos que aquela pessoa fez o que podia, o que estava a seu alcance. Acontece, porém, que quando o fracasso é nosso, esta postura parece desaparecer.

Alguns autores dão nome a esta habilidade, chamam-na de autocompaixão. Consistiria em tratar a si próprio com compreensão e bondade, como faria a qualquer outra pessoa. O fato, porém, é que erramos e gastamos nossas energias remoendo nossos defeitos, amargurados na culpa e na reprovação. E se isso te parece besteira, a edição de novembro de 2017 da revista Mente e Cérebro tratou deste tema e apresentou alguns resultados de uma pesquisa realizada na Universidade da Califórnia. A psicóloga Juliana Breines analisou três grupos de universitários submetidos a um mesmo teste de vocabulário. A um grupo não disseram nada antes da aplicação, a outro disseram: “Se você entrou nesta universidade e foi selecionado para este grupo, deve ser inteligente”. Ao terceiro, disseram que era comum ter dificuldades na hora da avaliação, mas deveriam se esforçar sem serem excessivamente exigentes consigo mesmos.

Depois disso, mediu-se o tempo que cada universitário gastou na sua preparação para um segundo teste. O que observaram foi que os membros do terceiro grupo, aquele que recebeu orientações de autocompaixão, utilizou 33% de tempo a mais quando comparado ao grupo “dos inteligentes”, que talvez tenha vivenciado autocobranças mais rigorosas e limitantes. Em relação ao grupo “neutro”, o tempo de estudos foi 51% maior.

Veja, não se trata de vitimização, de indiferença, de pensar que tanto faz, que todo mundo erra, então que se dane. Não consiste em olhar para si mesmo com pena, mas entendimento. Saber-se uma pessoa com limites e potencialidades. Saber que o que foi feito talvez não tenha sido o suficiente, mas que é possível tentar novamente. A energia e o tempo gastos com o próprio desmerecimento e culpabilização certamente poderiam ser usados na reflexão sobre o que se passou e no aprendizado que provém dos erros.

Em síntese: não sou uma máquina e posso errar. Se errar, mesmo que existam outros culpados, não preciso me envergonhar da minha própria responsabilidade. Fiz o que pude, e posso fazer melhor numa próxima oportunidade.