Autodiagnóstico e o Poder das Palavras

Palavras Cruzadas

– Gostaria de marcar um atendimento. O que eu tenho é __________.

Se fosse feita uma enquete com os psicólogos e psicólogas de todo o Brasil, acredito que muitos responderiam já ter escutado algo assim.

É muito comum que busquemos dar nomes às nossas condições atípicas, assim como logo chamamos de gripe, resfriado ou virose aquele mal-estar que aparece de vez em quando. Fazemos isso porque aprendemos assim. Se tantas vezes apresentei esses mesmos sintomas e me disseram que era isso que eu tinha, por que seria diferente agora?

Fazemos isso até com coisas que são inéditas. Graças ao Google e ao diário dos nossos amigos nas redes sociais, nunca foi tão fácil compararmo-nos às outras pessoas.

– Poxa, me sinto assim também, acho que é isso que eu tenho.

Mas te convido, agora, a olhar para além dessas atitudes que parecem não ter grande importância.

O que tem de tão fascinante nesse ato de dar nome às coisas? Quem é o grande agente desse ato?

A psicanálise lacaniana nos provoca a reflexão de que há sempre um Outro por trás destas ações. Com letra maiúscula porque não se refere a uma pessoa específica, mas a todo um conjunto de paradigmas aos quais estamos submetidos nas nossa relações com a cultura e as instituições.

Ficou estranho demais?

Veja se este exemplo te ajuda a entender: tente imaginar como fazem os cuidadores de um bebê quando ele chora. Um vai dizer que é fome, outro diz que é sono. Mais adiante a criança cai, rala o joelho, alguns dirão que não é nada.

Percebe o que está o ocorrendo? São alguns outros que transmitem para a criança em crescimento um saber a respeito desse choro. Não um saber que seja deles, mas que também aprenderam ao longo do tempo. De que maneira você acha essa criança, quando adolescente ou adulta, vai dar nome às coisas que vivencia e sente? Da forma como aprendeu.

Indo além, de quem você acha que ela vai esperar que venham os nomes das coisas? Do Outro, este que pode se concretizar em sua vida por meio dos pais, dos médicos, professores, políticos, padres, pastores e por aí vai.

O que podemos esperar lá pelas tantas da vida – que é provável que só se produza por meio da análise – é que ela e nós tenhamos maior clareza desses processos e de como somos movidos por eles. Uma vez cientes, poderemos questionar nossas condutas diárias diante de tudo o que nos acontece.

– Quer saber de uma coisa? Não quero dar nome pra mais nada.

É isso que se espera? Não, não é bem por aí.

Nem saberíamos existir enquanto seres humanos se não fosse na linguagem.

De um ponto de vista prático, e retomando a questão diagnóstica, o nome para uma doença, por exemplo, é bastante significativo! Câncer, AIDS e gastrite tem encaminhamentos muito distintos, não queira confundi-los.

Acontece, porém, que no território das vivências psíquicas, os elementos não costumam ser tão evidentes e claros quanto pensamos. Muitas vezes buscamos nomeá-los para diminuir a angústia que estamos vivendo, mas a busca por estes nomes entra na complexa dinâmica dos paradigmas aprendidos. E nesta dinâmica há muitos vetores, forças que conduzem as palavras por muitos caminhos.

No trabalho clínico, me parece que é mais valiosa uma postura curiosa e investigativa daquele(a) que diz “sofro e quero entender este sofrimento” do que as frágeis certezas do autodiagnóstico.